sábado, 8 de fevereiro de 2014

Do desapego.

       A primeira vez em que eu me apaixonei, eu acreditei que não houvesse forma mais complicada de deixar uma pessoa ir embora. Que deixar de sentir algo como aquilo fosse a maior forma de desapego que se poderia esperar de alguém. Quando nós somos bem novos, as coisas parecem ter uma proporção muito maior do que na verdade possuem. O amor, seja qual for sua forma e tamanho, naquele momento, parece maior do que tudo. E dentro daquele sentimento que em você é tão novo, tão perdido, tão recente, esquecer alguém parece tão difícil que não sobra espaço para você pensar até que ponto o desapego se faz presente em cada aspecto da sua vida. Não existe essa possibilidade até, de repente, ela lhe chutar a cara. É quando o tempo acontece.
       Quando eu era nova, eu sempre vi a maioria daquilo que estava no meu dia-a-dia, como permanente. Eu olhava para meus primos e acreditava que não poderia existir relação mais duradoura. Via minha família como um laço imperfeito, mas real; quase como inquebrável. E, depois de um tempo errando muito, olhava minhas amizades como certas e cheias de futuro; cheias de memórias a serem feitas e lembradas. 
       O que eu demorei a entender é que o desapego vêm em formas. O desapego, diferente do que eu conhecia, vêm de todos os cantos. O desapego vêm daquela ideia que você levou consigo durante tanto tempo até perceber que nunca vai ser. Vêm de um desejo antigo que passa por você e acontece de outro jeito. Ou simplesmente não acontece. O desapego vêm de um adeus esperado. Ele vêm daquilo que você acreditava que um dia seria e nunca foi. Ele vêm daquilo que se quebra nos seus dias e que, por tanto tempo, você acreditou ser mais certo do que qualquer coisa. Ele vêm com as inúmeras mudanças que, em um ponto, parecem se tornar uma rotina. 
       O desapego é aceitamento. Ele vêm com o entender de que se desapegar não determina uma falha sua. Ele vêm com a compreensão de que tudo ao redor da nossa vida é cheio de fios que podem arrebentar de uma vez, ou aos poucos, de uma hora para outra. Ele vêm quando você aceita que é necessário desistir de algumas pessoas e permitir que elas desistam de você. Entender o desapego é saber que, as vezes, ele precisa acontecer. É aceitar a dor que vêm com ele e com o fim que ele carrega. 
       O desapego se faz em torno de fins e cortes. É triste. Cheio de dores que você só conhece quando ele se faz presente. Mistura-se nas decepções e nas possibilidades.
       O desapego, entretanto, é paz. E quando você se familiariza com suas formas e a maneira como ele é inevitável, há um encontro com uma paz dentro de você que torna tudo aceitável; justificável.
       E você segue. Cheio de dores. Cheio de desapegos indesejáveis.
       Mas em paz.

sábado, 25 de janeiro de 2014

30/12/2013

Y,

          Desde 2009 - ou 2008, eu não lembro - quando o ano vai se engolindo cada vez mais e acabando, eu costumo escrever. No final do ano passado, quando chegou o momento de falar sobre o que tinha sido 2012, eu me lembro de pensar "preciso escrever sobre esse ano que foi absursamente bom". Não escrevi.
           A verdade é que eu acho que quando algo está bom demais você não tem tempo de escrever a respeito. Ou tem medo de azarar um amontoado tão bom de memórias. Ou simplesmente não sabe como colocar em palavras esse amontoado já que, sejamos sinceros, a tristeza é muito mais fácil de ser escrita e poetizada.
         O que eu percebi ao tentar falar sobre 2013, ao pensar em como falar sobre esse ano e o que ele tinha significado, é a simples explicação de que 2013 foi.
          Nesse formato sem sentido, sem conjugação, eu entendo esse ano exatamente assim - sem muito sentido. Não foi um ano ruim. Mas não foi um ano bom. Foi um ano mixado em tragédias, risadas e uma certa solidão que eu, enfim, aceitei estar em mim. 
            2013 me parece um ano vivido como um passo para o ano que realmente iria estar valendo, se isso faz qualquer sentido. Me parece um meio termo. Aquele trecho, entre o começo, meio e fim em que você se conserta para seguir mais inteira. 
         Eu não sabia, ao começar esse ano, o quão perdida eu estava. E nos meses que se seguiram, fui descobrindo sempre mais uma dúvida, mais um medo, mais uma incerteza. Fui me desentendendo cada vez mais para poder, enfim, me entender. Nas minhas milhares de dúvidas, criei mais algumas e encontrei respostas pra algumas outras. 
            O final de um ano sempre me intrigou, pelo simples fato de você tirar uma energia desconhecida de dentro de você para um novo ano. A ideia de recomeço sempre me trouxe uma certa paz quando o caos parecia fazer parte do meu corpo. A ideia de fazer diferente, a vontade, o famoso "chega disso, é hora de mudar".
                  2013 acaba e eu não sei mesmo o que esperar desse novo ano. Mas eu agradeço por esse ano maluco em que, tanta confusão, fez com que eu saisse dele me entendendo um pouco mais mesmo que, no meio de tudo isso, possa ter sido quase desesperador.
                  Hora do novo, hora do velho, hora de jogar coisas fora e de deixar entrar coisas novas. Hora de dizer mais sim e não tanto não. 

                  Que eu não tenha tempo ou jeito de escrever sobre o ano que se passou daqui 365 dias.

                                                                      C.
                  

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013


              Nunca não vai me mesmorizar essa coisa incrível, assustadora e fascinante que é a capacidade da música te recolocar num exato momento da sua vida. Uma música, num determinado momento da sua vida, tocou todas as suas notas melódicas e, de alguma forma, correu por todo o seu corpo como se estivesse dentro dele, alcançando cada pedaço seu e, ao terminar, deixou um pedaço dela ali. Como se, de repente, aquela música ganhasse vida em você. E toda vez que é tocada, não importa quanto tempo passe, aquele pedaço que ficou em você acorda, e tudo o que você sentiu na primeira vez em que aquela harmonia encontrou seu corpo, acorda também. O gosto daquele momento, daquela memória, se faz fresco em você mais uma vez.

             Isso é o que sempre mais me encantou na música - o modo como ela possui a capacidade de entrar em você e fazer você se encontrar numa completa bolha, abandonando e largando tudo o que estava fazendo ou pensando, onde só vive você, aquela melodia e aquele sentimento. Como se, de repente, sua alma ganhasse forma. Como se, ao fechar os olhos, toda a harmonia se combinasse com os movimentos do seu corpo, a batida do seu coração, o decorrer do sangue nas suas veias e você se tornasse uma sinfonia de notas. 

             A música, na minha vida, sempre foi me perder nela, dentro dela, fora dela, ao longo dela, ao redor dela, nos restos dela e em todas as suas formas e possibilidades. 

             Me perder na música, sempre significou cravar um momento em mim. E, uma vez cravado, me perder na música, significou recordar.

             Hoje eu ouvi aquela música, moço, e lembrei de você.

sábado, 26 de outubro de 2013


A gente se quebra. 
E a vida acontece.
E a gente se quebra um pouco mais.
E se quebra um pouco mais quando pensa em como está quebrada.
E vai se quebrando no ciclo doloroso de tentar se consertar.
Se quebra até não existir mais pedaços grandes o suficiente pra serem colados.
Se quebra até não existir mais remendo.
Só cacos.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

E a gente finge não se conhecer.
Fingimos que nunca passamos a madrugada conversando.
Fingimos que nunca falamos sobre planos e vontades.
Fingimos que nunca idolatramos um músico juntos e nunca fizemos melodia ao mesmo tempo.
Fingimos que nunca tivemos uma só memória com o outro.
Fingimos até não ter mais o que fingir; até não ter mais o que lembrar.

O tempo se faz de cura, mas ele também castiga.
Ele passa e faz você encontrar quem a tanto tempo fingia nunca ter conhecido. E te faz se questionar se foi tempo o suficiente para seguir conforme a vida te leva. E então, você tem que fingir com aquela pessoa ali, bem do seu lado.
E ela finge junto.
E juntas, vocês fingem uma última vez, a última memória que terão um do outro. Ou seria a única memória de dois estranhos?
A gente se olha e finge que não se conhece. Que nunca se conheceu.
Só dois estranhos passando pelo mesmo lugar, nesse mesmo tempo.
E a gente olha para baixo e segue andando, segue fingindo.
Porque, o que é o passar do tempo, se não te ensinar a fingir mais?

quinta-feira, 25 de abril de 2013


A verdade é que esquecer alguém não é impossível. O tempo vai afastando tudo aquilo que tornava aquela pessoa reconhecível para você.
Você esquece de como o final da boca dela subia um pouco mais no final, quando ria.
Você esquece a careta típica depois de uma piada.
Esquece como quando ia falar determinada palavra, tinha um jeito diferente de pronuncia-la.
Esquece como a sombrancelha se arqueava quando queria flertar com você ou quando queria tirar sarro.
Esquece o som da risada.
Aos poucos, vai esquecendo a voz.
O que fica é um sopro de memória. Aquilo que você tão insistentemente ainda tenta guardar, para não perder tudo o que ela foi, de uma vez. Mas o tempo se faz de vento. Vai levando os restos daquele sopro, cada vez que passa, até não ter mais nada dele. Até não ter mais nada do que um dia se fez parte sua.

E então, quando você finalmente vê uma foto, passa minutos observando um rosto que já lhe foi tão familiar. E tudo é infamiliar. Infamiliar a ponto de lhe deixar desconfortável; constrangida. Se perguntando quando deixou cada pedaço daquela pessoa se desfazer em você, até não haver mais forma de reencaixa-los.
Até se tornar tão irreconhecível.

A verdade é que esquecer alguém não é tão complicado.
A dor é desconhecer.
A dor maior vai sempre ser desconhecer.

terça-feira, 18 de setembro de 2012


É uma dessas estranhezas da vida – amar alguém que não nos ama. Gostar de alguém que não gosta da gente. Se apaixonar por alguém que é apaixonado por outro. Ou simplesmente não é apaixonado por você.
Acho que quando a gente deseja muito alguém, ama muito alguém, espera muito de alguém, fica difícil entender o porquê daquilo partir só de você.  Difícil entender porque ele ou ela, ama outra pessoa e porque, mesmo assim, você ainda quer tanto, preza tanto, gosta tanto, de alguém que não gosta de você.
Eu passei tanto tempo procurando entender os meus próprios porquês quanto ao amor, que esqueci o significado simples dele. Você gosta dele, como disse Chico Buarque uma vez, porque é ele. Só. Sem segundos significados, sem explicações lógicas ou o que for. Você ama aquela pessoa porque é ela, nos seus sorrisos e choros, no que você acha incrível ou odeia. E é só isso.
Você pode querer brigar com sua cabeça, brigar com aquele redemoinho que parece surgir na sua barriga quando ouve o nome daquele alguém, ir a procura de porquês quanto ao que você sente, mas qualquer tipo de amor é injustificável. E é isso que nós esquecemos.
Ele aparece porque é para aparecer, tendo um enredo entre ele ou não.
As formar de amor vão surgir independente do que nós queremos.
E na mais pura e comum razão que poderia ser – porque sim e só isso. Só isso.